quinta-feira, 10 de maio de 2018

Análises de sistemas de distribuição de água de resfriamento em plantas industriais.



Nas instalações industriais, principalmente em plantas mais antigas, ao longo do tempo os sistemas de distribuição de água de resfriamento podem ser impactados seja em função de ampliações na área produtiva que aumentam a demanda de vazão no sistema, ou mesmo por substituição dos equipamentos industriais devido a tempo de vida útil, ou necessidade de acompanhar a evolução tecnológica. Essas sucessivas modificações gradativamente vão descaracterizando a concepção original do sistema e fugindo as premissas originais de projeto que em geral são definidas de forma a otimizar o equilíbrio de fluxo e consumo de energia elétrica.
Em qualquer caso é fundamental a correta análise do sistema com relação ao equilíbrio de fluxo em seus diversos ramais. Toda modificação efetuada inevitavelmente impacta na perda de carga da linha, consequentemente afetando a perda de carga global do sistema. Além disso na grande maioria dos casos, equipamentos mais modernos, principalmente quando de maior porte, podem demandar maior vazão para que possam suprir a troca térmica requerida nos trocadores de calor, não só de sistemas hidráulicos, mas também de trocadores de calor de sistemas adicionais. Assim a combinação de equipamentos novos e antigos durante um processo natural de renovação do parque industrial, numa instalação pré-existente pode acarretar problemas de desequilíbrio de vazão nos equipamentos, de forma a ter equipamentos com excesso de vazão que em princípio não vão apresentar problemas, e equipamentos com falta de vazão que certamente vão apresentar problemas decorrentes da limitação de troca de calor.
Nesta situação é muito comum ver a busca imediata por uma solução que em geral é a menos econômica, aumentar a vazão total do sistema, entrando com uma segunda ou terceira bomba em paralelo para garantir o suprimento da demanda deficitária.
Na grande maioria dos casos, com o sistema operando numa condição de elevada perda de carga, o acréscimo da bomba adicional tem pouco ganho em vazão e grande desperdício de energia, uma vez que a variação de consumo não é linear, não é proporcional, posto que o incremento de vazão com acréscimo de perda de carga aumenta a pressão total do sistema, muda a faixa de rendimento das bombas e consequentemente a potência mecânica requerida. Quando, na curva característica da bomba, essa mudança ocorre a esquerda da faixa de rendimento máximo o acréscimo de consumo será certamente muito relevante, resultando num péssimo custo benefício para as empresas.
Um exemplo de aplicação da metodologia de análise numa instalação com mais de 30 anos, que ao longo do tempo sofreu diversas modificações descaracterizando a configuração original, não permitindo a seus operadores ter certeza de que estaria adequada para futuras expansões, nos fornecerá maior compreensão quanto a abrangência e importância do tema.
Originalmente essa instalação foi concebida para atender até doze equipamentos que demandavam individualmente vazão de água de resfriamento de 5 m3/h. A instalação conta com três bombas centrífugas DARKA CJ-11 (10 CV), instaladas em paralelo, na concepção de que duas estariam operando e a terceira seria reserva. Assim em princípio a rede não foi dimensionada para operação com as três bombas em paralelo simultaneamente.
Por ocasião da análise do sistema apenas quatro dos nove equipamentos do setor da unidade industrial que estavam operando demandavam água da torre de resfriamento, o que permitia a operação do sistema de água de resfriamento com o funcionamento de apenas uma das três bombas disponíveis. Haviam na mesma unidade mais cinco equipamentos em funcionamento, porém utilizando água gelada suprida por Chiller, distribuída numa rede isolada paralela a rede de água de resfriamento, que mesmo tendo outra finalidade para o processo, estava também conectada aos trocadores de calor de sistema hidráulico dos cinco equipamentos, de forma que a demanda de água de resfriamento oriunda da torre estava inferior a 50% do previsto, assim como do real.
É evidente que a solução de contingência adotada resultava num maior custo operacional pelo consumo de água gelada, substituindo água de resfriamento, em cinco dos nove equipamentos operacionais.
Como citado anteriormente, este caso é um exemplo muito típico de impacto de diversas modificações feitas numa unidade industrial, que resultaram em desequilíbrio das perdas de carga nas ramificações do sistema, o que segundo informado pelos operadores acarretou em não obter vazão suficiente para atender os nove equipamentos, mesmo quando operavam com duas bombas ligadas em paralelo.
Na análise inicial do problema foi verificado que devido as modificações de Layout, com instalação de equipamentos em derivação mais próxima da unidade de bombeamento, foi privilegiado um subsistema desequilibrando o fluxo nos outros trechos em paralelo.
No gráfico abaixo está demonstrada a condição operacional do sistema de suprimento de água de resfriamento para quatro equipamentos, onde o cruzamento da curva característica da bomba (cinza) com a curva de perda de carga total do sistema (azul), indica os parâmetros operacionais com vazão de aproximadamente 36 m3/h com altura manométrica total de 40 mca.
Para esta condição foi verificado que apenas um equipamento que estava em posição mais favorável, no subsistema mais privilegiado, estava consumindo mais de 50% da vazão total, de forma que a vazão residual conseguia atender os outros três equipamentos em ramais paralelos, e não mais que isso.
O Escopo apresentado foi de analisar as instalações existentes, Torres de resfriamento, Bombas e tubulação, quanto a viabilidade para adequação da unidade com a implantação gradativa de oito equipamentos novos, de maior porte, em substituição da maior parte dos equipamentos existentes, com as seguintes premissas:
- Verificação de quantos equipamentos novos podem ser adicionados ao sistema, sem que sejam feitas alterações de tubulações ou bombas considerando que estes serão implantados em lotes de dois, e que dos quatro equipamentos antigos já compõem o sistema permanecerão em operação dois a partir de que estejam instalados seis equipamentos novos.
-  Os equipamentos novos demandam vazão 15,9 m3/h, sendo 5,1 m3/h para o trocador de calor do sistema hidráulico e 10,8 m3/h para o trocador de calor de sistema de individual de refrigeração integrado a cada equipamento.
- Os quatro equipamentos antigos requerem vazão de 5 m3/h.
Para cada cenário, a depender da quantidade e arranjo dos equipamentos na instalação existente, há uma curva específica de perda de carga do sistema. Assim para correta análise é necessário modelar cada etapa da situação proposta e calcular as perdas de cargas. Nesse processo interativo existem margens para ajustes, seja através do dimensionamento e instalação de perdas de cargas localizadas, solução que na medida do possível deve ser evitada, ou também pela adequação e comprimentos e diâmetros de derivações de alimentação e retorno em cada equipamento de forma a ajustar a perda de carga nesses trechos e assim reduzir a perda de carga total do sistema. Mas como a segunda possibilidade tem limites de aplicação, em geral após esse ajuste há necessidade de aplicar perdas de cargas localizadas em equipamentos mais próximos de forma a equalizar as vazões individuais para todos os equipamentos.
A análise tinha como condição e partida quatro equipamentos que demandavam vazão total de 20 m3/h, com objetivo de atender uma condição final de dez equipamentos requerendo vazão total de 137,2 m3/h. Com foco no de aproveitamento máximo da instalação existente foi pactuado a busca por solução resultando no aproveitamento das bombas instaladas e no máximo aproveitamento dos trechos de maior diâmetro da tubulação existente (3”). Para atender essa possibilidade passou a ser factível a análise de condição operacional para até três bombas simultaneamente em paralelo. Essa possiblidade foi motivada pelo fato de cada equipamento novo a ser instalado requerer mais de três vezes a vazão dos equipamentos em desativação.
As linhas de sucção e recalque das bombas e as linhas de interligação e retorno com a rede de distribuição para os equipamentos, representavam importantes oportunidades de melhoria requerendo adequação de diâmetros para reduzir a perda de carga total do sistema, visando possibilitar a condição de implantação proposta. A rede de distribuição para os equipamentos havia passado por adequação mais recente e foi redimensionada para o diâmetro de 3”, as demais citadas tinham em vários pontos diâmetros menores que 3”.
Para avaliar as limitações e possibilidades do sistema existente foi modelada a condição limite, oito equipamentos novos e dois antigos, sem alteração na rede.
Para correta avaliação do sistema operando com uma, duas ou três bombas em paralelo, em função da divisão de fluxo e excessiva perda de carga nos trechos individuais de sucção e recalque das bombas, houve para um mesmo sistema variação da curva de perda de carga uma vez que o acréscimo de linhas paralelas de sucção e recalque das bombas reduzem a perda de carga desse trecho da tubulação, o que pode ser observado no gráfico abaixo:
No gráfico acima é possível observar diferença nas três curvas de perda de carga, que para a faixa de vazão avaliada é muito sutil nos casos de operação com duas ou três bombas em paralelo, mas demonstrando que não considerar essa variação e tomar como base a curva de perda de carga do sistema com uma única bomba, acarretaria erros para qualquer vazão a partir de 40 m3/h.
Colocando no gráfico acima as curvas características da bomba para as três possibilidades temos

- A condição operacional com uma bomba CJ11 (10 CV) resulta em vazão de 61 m3/h e perda de carga total de 31 mca.

- A condição operacional com duas bombas CJ11 (10 CV) resulta em vazão de 74 m3/h e perda de carga total de 40 mca.

- A condição operacional com três bombas CJ11 (10 CV) resulta em vazão de 77 m3/h e perda de carga total de 42 mca.

Os dados anteriores demonstram que a limitação do sistema se da pela perda de carga total da tubulação e não pela capacidade de bombeamento. Neste caso a inclusão da terceira bomba acarreta aumento irrisório de vazão com acréscimo de 50% da potência instalada.
Para melhor elucidar essa conclusão está simulado no gráfico abaixo a condição hipotética de aumento de capacidade de bombeamento com a utilização de três bombas CJ13 (15 CV) operando simultaneamente em paralelo.


O gráfico acima apresenta o cruzamento da curva característica da bomba centrifuga CJ13 (vermelha), com a curva de perda de carga do sistema (azul), considerando a operação de três bombas em paralelo. A condição operacional obtida neste caso é com vazão 84 m3/h e perda de carga total de 49 mca.
Fazendo uma avaliação entre as vazões obtidas e potência nominal requerida temos o seguinte resultado:
No gráfico anterior está representado um acréscimo de potência nominal de 350% com aumento de capacidade de bombeamento, resultando em acréscimo de vazão de apenas 37%.
Desde a primeira análise comparando as condições para uma e duas bombas CJ11 em paralelo, já era evidente que a limitação do sistema estava na perda de carga da tubulação.
O objetivo desse artigo é alertar quanto a importância da correta análise do sistema antes de buscar a solução que muitas vezes parece a mais eficaz, mas que sem a correta análise, além de poder se tornar economicamente inviável, pode não atender à necessidade requerida. A tendência da curva de Vazão x Potência Nominal é de assíntota ao eixo vertical, o que significa ser necessário proibitivo aumento de potência nominal instalada para que seja obtida a vazão requerida de 137,2 m3/h.
Com a simulação de adequações nas tubulações já ciadas e incremento de uma tubulação de 6” para alimentação até o primeiro nó de bifurcação do sistema, aproveitando a tubulação de 3” já existente até esse nó, para operar como uma segunda tubulação de retorno, é possível reduzir drasticamente a perda de carga total do sistema, com investimento relativamente baixo requerido para as adequações, resultando na condição apresentado no gráfico abaixo.
A condição obtida demonstra a viabilidade da instalação existente para atender as mudanças de cenário previstas na unidade industrial, sem que haja acréscimo na potência instalada para o bombeamento de água de resfriamento. Neste caso a operação com duas bombas em paralelo e uma reserva, da forma como foi concebida a unidade de bombeamento, atende plenamente a vazão requerida para o cenário futuro, resultando em Vazão de 140 m3/h com perda de carga total de 26 mca.
No gráfico acima fica também explicito que há possibilidade de futura substituição dos dois equipamentos antigos remanescentes por dois equipamentos novos, neste caso havendo necessidade de operar com as três bombas em paralelo. Uma vez que a vazão total requerida seria de 159 m3/h, e a condição obtida no gráfico acima para o caso de três bombas foi, vazão de 164 m3/h com perda de carga de 35 mca.
A curva de perda de carga apresentada no gráfico acima foi a de operação com duas bombas, que representa a condição média, válida neste caso, uma vez que foram consideradas nessa modelagem adequações de diâmetros de tubulações individuais de sucção e recalque das bombas, tornando desprezível a variação na curva de perda de carga do sistema nas três condições. Outra observação pertinente é em relação a hipotética possibilidade de operação com uma única bomba na condição de adequação proposta. Pode ser observado no gráfico acima que não houve interseção entre a curva de uma bomba (amarela) e a curva do sistema (azul). A interpretação dessa questão é que a operação com uma bomba vai leva-la a sobrecarga e desligamento decorrente de aquecimento do motor, uma vez que estaria operando fora de faixa e com rendimento muito baixo. Esse comentário visa elucidar outra situação hipotética, mas pertinente, que é a possibilidade da unidade industrial operar com redução de capacidade instalada, e também se obter economia de energia adequando o bombeamento. Seria razoável na condição de operar com 50% da capacidade instalada fazer o desligamento de uma bomba mantendo apenas uma em funcionamento, porém haveria problemas se não forem efetuadas manobras que permitam adequar a faixa de rendimento da bomba. Neste caso existem várias possibilidades uma vez que é necessário impor ao sistema para vazão na ordem de 80 m3/h um adicional de perda de carga de 10 mca.
A analise desse sistema resultou na identificação de que apenas dois equipamentos novos poderiam ser acrescentados ao sistema sem que fossem realizadas as adequações nas tubulações, apenas com instalação de perdas de carga localizadas para equilibrar o fluxo nos equipamentos, mas sobretudo deu aos operadores pleno conhecimento da viabilidade de implantação da renovação do parque industrial com aproveitamento do sistema auxiliar de água de resfriamento existente, requerendo apenas modificações em alguns trechos de tubulação. Para tanto, após uma análise dessa natureza é necessário a elaboração de projeto executivo específico com o redimensionamento das tubulações do sistema.
A LINDEN ENGENHARIA tem expertise em dimensionamento, projeto, análise e adequações de instalações de bombeamento e distribuição de água industrial, assim como em redes de combate a incêndio.

Roberto de Souza van der Linden
Engenheiro Mecânico – LINDEN ENGENHARIA
robertolindenen@hotmail.com


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Acidente Itaquerão - 27/11/13 - Guindaste LR-11350


O acidente ocorreu no último içamento de uma das grandes estruturas da cobertura do estádio que conforme informado no jornal da Band (27/11/13) tinha peso de 420 t.
Na figura abaixo divulgada na internet consta que o guindaste estava com 114 m de lança.


É de se estranhar que por vezes foi falado na mídia que o guindaste tem capacidade para 1.500 t, conforme consta nas informações da figura acima, porém o Guindaste Liebherr LR-11350 na sua tabela comercial não indica essa capacidade, mas sim a capacidade máxima de 1.350 t para a configuração SDBW2 com lança de 60 m e raio de 12 m, e 990 t de contrapesos conforme tabela abaixo:




A figura acima indica a configuração de montagem do guindaste que permite o máximo afastamento de contrapesos e a maior utilização de contrapesos (660 t) que corresponde a parte específica da tabela de carga na qual o equipamento está configurado para sua maior capacidade e o  comprimento da lança pode variar entre 48 e 78 m, o que não corresponde a condição de montagem do equipamento na ocasião do acidente. Assim deve-se ressaltar que além das variações de capacidade de cargas decorrentes do raio de operação, comprimento de lança e quantidade de contrapesos utilizados, existem para esse equipamento diversas outras opções de montagem que resultam em capacidades de carga para cada raio de operação limitadas tanto pela condição estrutural como pelo limite de estabilidade. Por se tratar de um equipamento de fabricação Alemã, a tabela de carga está limitada para a condição de estabilidade em 75 % do limite de tombamento do guindaste conforme norma DIN/ISO, porém na tabela de carga não temos como identificar se a capacidade indicada para a configuração e parâmetros operacionais está limitada pela condição de estabilidade ou estrutural.
Outra indicação do fabricante que limita a capacidade máxima do equipamento e consta do catálogo comercial é a capacidade máxima do moitão correspondente a 1.350 t, conforme consta da figura abaixo:


A elucidação acima quanto a capacidade limite ou nominal do equipamento o que por si só já consta da indicação no fabricante na própria nomenclatura do modelo tem o objetivo de alertar para o fato que de forma irresponsável alguns usuários de equipamentos ultrapassam deliberadamente os limites indicados na tabela de carga sob o equivocado subterfúgio de que a norma americana SAE estabelece o limite de estabilidade em 85 % do limite de tombamento. 
Para utilização fora do mercado europeu, equipamentos fabricados em conformidade com a norma DIN/ISO podem ser configurados para tabelas técnicas fornecidas pelos fabricantes que trazem como limite de estabilidade 85 % do limite de tombamento, respeitando o limite estabelecido pela norma SAE, porém isso não significa um acréscimo de 13 % em toda a tabela de carga, mas sim que na grande maioria das configurações a tabela de carga passa a ser limitada pela condição estrutural do equipamento.
A evolução tecnológica de processos e materiais de construção mecânica, associada a evolução tecnológica de monitoramento eletrônico e controles computacionais embarcados permitiu a grande evolução da capacidade de cargas dos guindastes assim os equipamentos são extremamente seguros quando respeitados seus limites e condições operacionais, além do que devem ser observadas as boas práticas no que diz respeito a garantir fatores de segurança compatíveis com a operação no que diz respeito a relação entre a carga bruta içada e a capacidade, porém os equipamentos modernos não aceitam desaforo, não há margem além da tabela de carga, e se isso não é respeitado duas possibilidades são eminentes, o tombamento por condição instabilidade ou o colapso estrutural por sobrecarga na estrutura do guindaste. 
Existem outros fatores que podem ser especulados como causas adicionais para a ocorrência do acidente que devem ser objeto de investigação, que são a pressão sobre toda a força de trabalho para conclusão da obra e excesso de confiança que o operador tenha adquirido ao longo da obra que pode ter levado a operar o equipamento em uma condição limite. Outro aspecto é em relação às condições do terreno, se houve preparação adequada para o deslocamento com carga, uma vez que houve chuvas nos dias anteriores ao içamento.
Aparentemente no caso do Itaquerão houve colapso estrutural, uma vez que as imagens não demonstram que houve afundamento relevante do terreno nem inclinação ou tombamento da base da máquina. Nas fotos divulgadas não foi possível visualizar desnivelamento na base do guindaste por afundamento de alguma das esteiras, o que pode ter ocorrido de forma sutil, mas suficiente para levar o raio de operação a uma condição que ultrapassou o limite estrutural do equipamento, isso se a carga foi anteriormente levada a um raio máximo, ou seja, operação a 100% da tabela de carga.
Percebe-se também nas imagens que havia possibilidade de maior aproximação do guindaste, de forma a operar num raio menos crítico para a montagem da estrutura.


Nas imagens acima observa-se a esquerda o equipamento no momento do içamento da estrutura no local de pré-montagem, com a lança em direção oposta a posição de montagem, e a direita a vista aérea da situação após o acidente. Nessas imagens podemos estimar algumas ordens de grandeza tais como:

1)      Entre o içamento inicial da estrutura e posicionamento para montagem houve, além do giro de 180° do guindaste, deslocamento com carga içada da ordem de 3 vezes o comprimento das esteiras, ou seja de aproximadamente 45 m;
2)      O comprimento de lança montada no guindaste é da ordem de 2,7 vezes o comprimento do mastro (42 m), o que corresponde a ordem de grandeza de 114 m, conforme indicado na figura inicial desse artigo;
3)  O raio inicial do içamento da estrutura na posição de pré-montagem é da ordem de 2 vezes o comprimento das esteiras, o que corresponde a aproximadamente 30 m;
4)  O Raio dos contrapesos flutuantes é da ordem de 1,7 vezes o comprimento das esteiras o que corresponde a ordem de grandeza de 25 m.

Conforme figura apresentada no início desse artigo e imagens do acidente a configuração na qual o guindaste estava montado era com contrapeso flutuante como consta da figura abaixo:


Aparentemente a configuração adotada para o guindaste durante a operação que resultou no acidente foi SDB, com comprimento de lança de 114 m (S), mastro de 42 m (D), e contrapesos flutuantes de 600 t num raio de 25 m (B), e mais 300 t de contrapeso no corpo do guindaste, o que resulta de acordo com a tabela comercial nas seguintes capacidades de carga para os respectivos raios de operação:

Raio de Operação (m)
Capacidade de carga (t)
Raio de Operação (m)
Capacidade de carga (t)
18
473
30
446
20
473
32
442
22
468
34
434
24
463
36
422
26
459
38
409
28
451
40
396

Obs.: Página 30 da tabela de cargas em anexo.

Na imagem abaixo pode ser observado que havia a possibilidade do guindaste ter se deslocado ainda mais próximo do local de montagem, reduzindo assim o raio de operação para instalação da estrutura:


Conforme relatado pela imprensa e pelos responsáveis da obra em entrevista, esse içamento já deveria ter ocorrido uma semana antes, seria o último grande içamento de estrutura metálica da cobertura do estádio e já haviam sido realizados anteriormente por esse mesmo guindaste 37 içamentos de estruturas semelhantes a que estava sendo içada durante o acidente, uma das quais idêntica posicionada do lado oposto da arquibancada, porém conforme depoimento de um operário no caso anterior a estrutura foi pré-montada mais próximo do local de instalação e não precisou haver deslocamento do guindaste com carga durante a operação.
Na mesma imagem percebe-se que o guindaste já havia girado a carga para a posição de montagem, que está indicado abaixo pela reta que passa pelo centro dos contrapesos flutuantes e centro de giro do guindaste, dando a impressão que o guindaste já havia parado o deslocamento e estava posicionando a estrutura no local de montagem, talvez num raio de operação crítico, o que pode ter requerido deslocamento adicional com a carga em raio máximo, objetivando alcançar a posição de montagem sem mais abertura de lança, gerando uma condição extremamente crítica que pode ter acarretado o acidente, seja por um pequeno desnivelamento ou afundamento do terreno ou por efeitos dinâmicos sobre a estrutura do guindaste, principalmente se este já estivesse com mínima folga operacional.


Na imagem abaixo podemos estimar que o raio de operação para instalação da estrutura na posição em que o guindaste estava no momento do acidente é pouco mais que 2 vezes o comprimento das esteiras, o que sugere um raio superior a 30 m.


Podemos estimar a composição de carga bruta, considerado o peso da estrutura de 420 t o peso do moitão de no mínimo 16,5 t (para capacidade máxima de 470 t), considerando que não estivesse instalado o moitão auxiliar, e estimando o peso dos acessórios (Lingadas e manilhas) em 2 t e cabo lançado do guindaste em 4,5 t, o que resulta em 443 t, sem considerar eventuais contingências cujas boas práticas recomendam adicionar mais 3 % ao valor obtido.
No link http://www.liebherr.com.br/CR/pt-PT/products_br-cr.wfw/id-8361-0/measure-metric constam as especificações técnicas do Guindaste LR-11350, indicando a sua capacidade máxima de 1.350 t, o que também consta da imagem abaixo extraída da página do fabricante Liebherr, onde podem ser baixados arquivos com informações técnicas e tabelas de carga do equipamento.


As boas práticas recomendam a utilização de 85 % da tabela de carga para operações com um guindaste e de 75 % da tabela de carga para operações com dois Guindastes em tandem ou para o guindaste auxiliar durante operação de verticalização.  É também usualmente considerado para determinação da capacidade requerida na tabela de cargas do guindaste um fator de contingências de 3 % e um fator de amplificação dinâmica acrescentando 15 %, este último fundamental principalmente em operações em que seja previsto o deslocamento do guindaste com carga içada, dessa forma para estas operações o percentual de utilização do guindaste não deve ultrapassar 87 %.
A Norma da Petrobrás N-1965, classifica como operação crítica todo içamento de carga no qual o percentual de utilização da capacidade de carga de tabela do guindaste esteja entre 77% e 95 %, de forma que mesmo considerando crítica admite a utilização de até 95 % da capacidade de tabela, o que tecnicamente é possível e seguro, porém requer o bom senso na análise de outros fatores que tornem a atividade ainda mais crítica tais como:

1)      Deslocamento do guindaste com carga içada;
2)    Operação com dois ou mais guindastes simultaneamente para içamento ou verticalização de uma única carga;
3)      Operações em que o ponto de içamento da carga estiver abaixo do nível de apoio do guindaste;
4)      Altura de elevação da carga e condições de vento do local de operação do guindaste.

Existem outras situações indicadas na literatura e em normas de algumas empresas a exemplo da N-1965, pertinentes a condições específicas das unidades industriais a que se destinam.
A velocidade máxima de deslocamento do equipamento é de 1 km/h o que corresponde a aproximadamente 17 m/min, porém com o guindaste em carga certamente não houve deslocamento nessa velocidade, e sim numa velocidade bem inferior que pode ser estimada em no máximo 10 % da velocidade máxima, assim um deslocamento da ordem de 45 m deve ter demorado mais de 25 minutos, ainda acrescido do tempo de possíveis paradas para avaliação das condições do terreno, isso pode ter provocado ainda mais pressão sobre o operador para concluir a atividade antes do posicionamento ideal com raio seguro para operação, principalmente porque duas atividades incompatíveis estavam sendo realizadas simultaneamente no mesmo canteiro de obras, a montagem da última estrutura metálica e um evento comemorativo da conclusão dessa fase da obra sem que efetivamente tivesse ocorrido. Isso nos remete a copa do mundo de 1950, quando da forma mais dura nossa nação aprendeu que não deve festejar de véspera.
O vídeo divulgado em 28/11/13 na internet, cujo link está abaixo, reforça a hipótese de colapso estrutural: http://www.redetv.com.br/Video.aspx?16,32,374969,esportes,redetvi-esportes,itaquerao-video-mostra-exato-momento-do-acidente
Chama a atenção no vídeo que já na primeira imagem aparece o cabo do guindaste fora da vertical, inclinado em direção a lança, como se a carga tivesse de alguma forma oscilado ou se chocado contra alguma outra estrutura. O autor do vídeo fez referência a ter visto a estrutura oscilando segundos antes de fazer a filmagem que capturou o momento exato do acidente.
Não há como nesse artigo emitir um parecer técnico sobre o que realmente ocorreu, porém, não há como deixar de registrar e protestar contra a omissão do poder público, no que diz respeito a falta de Norma Regulamentadora específica para a atividade de guindar, assim como protestar contra aqueles  que de forma leviana e irresponsável convertem capacidades de equipamentos de guindar sem  respaldo técnico do fabricante, indicando por exemplo que um guindaste com capacidade máxima para 1.350 t teria a capacidade para 1.500 t conforme foi amplamente divulgado na mídia.
Mesmo que meramente especulativa visto que uma análise conclusiva requer além de maiores informações e evidências que só podem ser obtidas no local do acidente, assim como a confirmação dos parâmetros da operação e configuração do guindaste, é alarmante a possibilidade de que contrariando o que foi divulgado pela mídia o içamento tenha sido realizado praticamente sem margem de segurança, sem folga em relação a capacidade de tabela de carga.
No Brasil há uma carência Normativa em relação ao tema, o que está se tornando extremamente crítico com o crescente mercado de construção pesada e montagem eletro-mecânica onde estão sendo utilizadas soluções de pré-montagem e instalação de grandes estruturas ou grandes equipamentos com guindastes cada vez maiores.
É urgente a regulamentação não só dos critérios de segurança e planejamento, mas também dos requisitos mínimos de capacitação e certificação para todos os profissionais envolvidos na atividade, assim como a definição de certificação de conformidade de inspeções no mínimo anuais dos equipamentos de guindar e seus acessórios.

Recife, 28 de Novembro de 2013.

Autor: Roberto de Souza van der Linden, Engenheiro Mecânico (UFPE), com curso de especialização em Engenharia Naval (UPE/USP) e  Rigger RGS/1459/2009 (OPUS/SOBRATEMA), atua como profissional responsável por atividades de manutenção de equipamentos e movimentação de cargas desde setembro de 2007 em obras da RNEST.

  

Anexo 1:  Pagina 30 Tabela Comercial de Cargas LR-11350